Prefeitura do Município de Varginha

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O COMBUSTÍVEL PODE SER OBTIDO A PARTIR DO ÓLEO DE VÁRIAS PLANTAS

Majô de Souza


 

Varginha - a 70 km de Alfenas - pretende promover uma nova revolução no campo, com reflexos diretos no meio ambiente como um todo, sobretudo na cidade. O município está instalando a primeira usina de biodiesel da região, inicialmente a ser produzido a partir de óleo de mamona. O combustível tem sido aclamado como ecologicamente correto, pois não polui como o óleo diesel (derivado de petróleo), é renovável, já que pode ser feito do óleo de várias plantas oleaginosas, gera empregos e

produz renda.

O Projeto Pró-Mamona, da Secretaria Municipal do Café e da Agricultura da Prefeitura de Varginha, iniciado em 2001, está perto de funcionar. A previsão é de que em junho o biodiesel - apelidado por muitos de petróleo verde - já esteja sendo produzido na usina e que seja usado, em primeiro lugar, na frota da própria Prefeitura. O programa vem sendo desenvolvido em parceria com outras Secretarias, como a de Obras e a de Indústria e Desenvolvimento Econômico, além de Emater, Ufla (Universidade Federal de Lavras) e Universidade do Ceará.

O secretário de Agricultura, Joadylson Barra Ferreira, comemora a oportunidade de instalação da fábrica justamente quando o Governo Federal anuncia que tornará obrigatória a adição de combustível vegetal ao óleo diesel, na proporção de 2%.

 

A idéia

O secretário informa que a idéia da usina foi do prefeito Mauro Tadeu Teixeira (PT). Em visita à Europa, ficou conhecendo o combustível e se interessou. Descobriu que um pesquisador do Ceará, Expedito Parente, era o pioneiro na utilização de mamona como matéria-prima de combustível. Foi este pesquisador que, em 1983, fez o querosene de avião a partir de óleo de mamona e voou, num Bandeirantes, de São José dos Campos a Brasília usando este combustível. "Mas vivíamos uma

ditadura e o projeto foi abortado. Graças a Deus isto acabou", diz Ferreira. Segundo ele, o prefeito visitou o pesquisador, que estava trabalhando no biodiesel, sendo inclusive detentor da patente do produto à base de mamona. "O prefeito quis entrar neste negócio e hoje a usina está aí, prestes a iniciar a produção. Problemas vão acontecer, estamos apanhando, mas também estamos aprendendo."Idealizado o projeto, a Prefeitura conseguiu que alguns produtores rurais plantassem mamona. Coube ao Poder Público ceder sementes, adubo, horas/trator para os pequenos, fazer convênio com a Emater, para a prestação de assistência, e com a Ufla, para a realização de pesquisas com a planta.

O pagamento destes insumos é feito em mamona. Desta forma, se um agricultor tomou R$ 100 em insumos, vai pagar R$ 100 em mamona. "Toda a mamona que o município receber vai ser transformada em biodiesel. Se ele quiser vender para nós, ao preço que nós nos propusermos a pagar, vamos comprar. Mas o agricultor terá liberdade de vender para outros, já que pode obter R$ 4 por litro de óleo", explica o secretário.

Segundo ele, o custo de um litro é de R$ 0,50. "Se ele vender para nós a R$ 1, por exemplo, terá 100% de lucro, mas poderá ter muito mais se vender para outro. Não podemos obrigá-lo a vender para nós." A conta do lucro é fácil de fazer. Se se considerar a produção de mil quilos de mamona por hectare, a produção de óleo será de 400 litros. Ao preço de R$ 4, o valor final será de R$ 1.600. O produtor pode também vender 600 quilos de torta de mamona, largamente utilizada na indústria de fertilizantes, ao preço de R$ 0,30 o quilo, o que lhe renderia outros 180.

Mas, no que interessa à Prefeitura, a proposta é adquirir a mamona, transformá-la em biodiesel e, ainda, retirar dela a glicerina, produto com bom mercado no Exterior. Ferreira ressalta que a Prefeitura não vai ficar na administração da usina. Tão logo ela esteja funcionando será repassada a uma associação chamada Biovar. "Na Prefeitura, em que tudo depende de licitação ou concurso, as coisas demoram a acontecer. Numa associação, pode ser mais rápido. Além disso, a operação de compra e

venda não é afeita à função da Prefeitura. Vamos ficar como incentivadores disso."

O secretário lembra que quando as primeiras notícias de uma usina de combustível vegetal foram divulgadas  "o prefeito foi chamado de louco. Havia rodinhas de risada.  Mas agora é  um programa sem volta. Nós tivemos a coragem de ser os primeiros. Hoje, já estamos sendo procurados para associar produtores, fazer trabalhos conjuntos e buscar investimentos para plantio e instalação de usinas menores."

 

A mamona

A mamona tem ciclo - do plantio à colheita - entre 180 e 210 dias. O custo de produção gira em torno de R$ 700 por hectare, menor que o custo do milho. Além do óleo, da planta é feita a torta fertilizante. "O produtor nem precisa vender a torta, porque é um excelente adubo e pode ser usado em várias lavouras. É maticida; se você usar, acaba com os nematóides (vermes microscópicos que habitam o solo e podem causar várias doenças às plantas)", afirma o secretário.

A mamona pode ser plantada em consórcio com outras culturas, como o feijão, por exemplo. Se for consorciada ao café, o plantio deve ser apenas em lavouras recepadas (podadas) . "Com outro tipo de lavoura de café não tem jeito, por causa da competição por nutrientes. No próximo plantio, em setembro, vamos tentar plantar com o milho". O plantio pode ser ainda "solteiro", ou seja, sem ser associado a outras culturas. O plantio é feito de setembro a março e a colheita ocorre em julho e agosto. O teor de óleo é de 48%. Na região, é uma cultura nova e, por isso, pesquisas a respeito do cultivo, como espaçamento ideal entre plantas, a melhor variedade para esta área, que planta é ideal para a consorciação e qual o melhor período para promover a rotatividade de culturas estão sendo feitas. "Mas estamos sentindo que está dando certo. Uma das vantagens é que a mamona é uma cultura de cultivo todo manual. Então, poderá gerar empregos."

 

O biodiesel

O biodiesel pode ser produzido com o óleo de muitas plantas, como mamona, soja, girassol, amendoim e algodão. Até mesmo o óleo de fritura pode ser transformado em biodiesel. No caso de Varginha, será obtido primeiramente da mamona, mas como a área plantada é pequena, de apenas

80 hectares até agora, a Secretaria de Agricultura não descarta outras fontes.

Em toda a região é possível encontrar mamona nativa. Para muitos, trata-se de uma praga. Para outros, aquelas bolinhas cheias de espinhos servem apenas como munição de estilingues. Mas, mesmo esta planta encontrada em beiras de córregos,  terrenos baldios e margens de rodovias e avenidas, que nascem naturalmente sem qualquer planejamento, pode ser aproveitada para a produção de biodiesel.

O cuidado necessário é que suas sementes não devem ser misturadas com as sementes que são selecionadas para o plantio racional. Cinco bairros da cidade já foram escolhidos para o início de um projeto de coleta seletiva de lixo e mais seletiva ainda de óleo de fritura. A proposta é que os coletores recolham o óleo em garrafas plásticas do tipo pet. Delas, o produto passa para tambores. "O óleo vai para a usina e os pets para a cooperativa dos catadores, a fim de serem reciclados", informa Ferreira.

Segundo ele, o custo desta fonte é quase zero, uma vez que as pessoas jogariam o óleo fora de qualquer maneira. Além de ser transformado em combustível e gerar empregos, o meio ambiente se beneficia, pois o produto não vai para as redes de esgoto nem para lixões. Ferreira faz uma estimativa rápida. "Vamos dizer que Varginha tenham 40 mil residências e que cada uma gaste dois litros de óleo por mês. Serão 80 mil litros todo mês e poderemos comprar de outros municípios também." Outra expectativa é a chegada da soja - outra fonte para a produção de biodiesel - na região. "A soja está vindo sim e poderá ser usada. Além disso, a região utiliza muito o sistema de plantio direto de várias

culturas e é recomendável o plantio de oleaginosas para fazer a cobertura do terreno. Tudo vai casando. Não vão faltar fontes para o biodiesel."

Na fábrica - que deverá produzir 60 litros de combustível por hora toda a estrutura física está sendo montada. A obra é realizada com recursos e mão-de-obra da Prefeitura.  Laboratório, capela (para ensaio químico), escritório, caldeira e maquinário de beneficiamento e refino ficam sob um telhado em forma de folha de mamona. O maquinário veio do Ceará, por meio de um contrato de comodato entre a

empresa Tecbio e a Prefeitura. "Veio sem custo. Pagamos o frete e estamos fazendo a estrutura. Vai ficar em comodato até o final do ano.

Depois, já entramos em contato com o Ministério Ciência para um projeto de compra deste equipamento", afirma o secretário. Também está sendo construído um barracão para abrigar o equipamento de extração do óleo de mamona. O óleo vai do barracão para a usina para beneficiamento e refinamento. Além do biodiesel, será produzida também glicerina .

A mistura autorizada no momento para adição ao óleo diesel é de 5%, o chamado B-5. Ou seja, para cada 100 litros de combustível, 95 serão de diesel e cinco de combustível vegetal. Com esta mistura, o combustível vai poluir 5% a menos que o nível atual. Há países com mistura de 30% (B-30) e 100% (B-100).

 

Vantagens

O biodiesel oferece várias vantagens econômicas, sociais e ambientais. No setor econômico,  geração de emprego e renda, diversificação da produção agropecuária, redução dos custos de manutenção dos motores diesel, complementação de renda para pequenos produtores e melhor utilização dos recursos naturais.

Socialmente, contribui para a fixação do homem ao campo e é fonte alternativa de empregos diretos e indiretos.

O meio ambiente urbano é beneficiado com a redução da emissão de gás carbônico, redução do efeito estufa, redução da emissão de óxidos de enxofre e hidrocarbonetos e redução da emissão fuligem e fumaça. O biodiesel é mais biodegradável que o diesel, retira gás carbônico da atmosfera e é 100% renovável.